Quando fundamos a Traive em 2017, a proposta era clara: crédito agrícola precisa considerar produtor, fazenda e mercado. O motorista, o carro e a estrada.
Oito anos depois, com a inadimplência batendo recordes, o mercado decidiu acreditar em mágica. A mágica do CPF.
## A Ilusão
Virou mantra: “me passa um CPF e eu te digo tudo”. Como se a complexidade do agro pudesse ser reduzida a onze dígitos.
Se o modelo atual fosse tão inteligente, a inadimplência não estaria onde está.
## A Avalanche de Dados (ou será despejo?)
Pior: surgiram soluções que pegam o CPF e jogam na tela uma montanha de informações desconexas. O analista de crédito não precisa de mais dados. Ele precisa de inteligência aplicada. Uma ferramenta que sintetize, conecte, aponte caminhos.
O CPF captura apenas risco financeiro e histórico. Ignora: risco agronômico, ambiental, operacional, de cultura, de mercado, de portfólio. O CPF diz quem é o motorista. Não diz nada sobre o carro, a estrada ou o clima.
## O Que Falta
O mercado trata análise de risco como fim em si mesmo. Quando na verdade, análise bem feita é o ponto de partida para compartilhar risco de forma inteligente. E compartilhar risco é o que destrava vendas.
As soluções tecnológicas deveriam entregar as duas coisas: análise que ajuda a decidir melhor e estrutura que permite distribuir esse risco de forma escalável.
A lógica é simples: o mercado financeiro passou a vida tomando decisões com CPF para outras indústrias. Eles querem o mesmo pro agro. Exatamente porque não entendem como o agro funciona.
## A Verdade
Inteligência artificial no crédito agrícola não é sobre extrair tudo de um CPF. É sobre conectar variáveis que sozinhas não contam a história completa. É sobre dar ao analista clareza e direcionamento. Uma ferramenta que o empodere, não que o enterre.
O analista não é o problema. As ferramentas ruins é que são.
Análise e distribuição de risco caminham juntas. Se você não consegue explicar o risco, não consegue vendê-lo. Se não consegue vendê-lo, não escala.
O mercado precisa de menos mágica e mais método. Menos CPF e mais contexto. Menos avalanche de dados e mais inteligência aplicada.
Porque quando a inadimplência bate na porta, não é o CPF que vai te salvar. É ter entendido o risco de verdade desde o começo.
Por Fabrício Pezente, fundador e CEO da Traive.
PT
EUA